segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

: Os perigos dos relacionamentos SM iniciados sem as devidas precauções










O que me leva a abordar esse assunto tão importante dentro de nosso universo BDSM, é a constatação pessoal, através de contato com várias candidatas a submissas, vítimas de abordagens agressivas, violentas, mal educadas e esdrúxulas de falsos dominadores, até, pasmem, a proposta de submissas que insistem "veementemente" (como se isso fosse possível a uma sub), que meus processos de aproximação, iniciação, aceitação, instrução, treinamento, adestramento e encoleiramento sejam "encurtados" e, até mesmo, suprimidos, para que a primeira sessão seja, praticamente, imediata. Quero deixar claro que não coaduno, em hipótese nenhuma com esse tipo de proposta ou comportamento, nem por parte de submissas ou candidatas a submissas, nem por parte de dominadores, ou supostos dominadores ou candidatos a dominadores. O que tenho constatado trata-se de absurdos, brincadeiras com a segurança e com vidas de pessoas que, antes de serem submissas, são seres humanos, mortais. Começo tratando do caso de pretensos "dominadores" que abordam as submissas em sites da internet tratando-as como se suas escravas fossem. Isso já acontecia nos velhos tempos das saudosas salas de chat SM do UOL, mas era mais fácil expulsar os fajutos, porque as próprias subs, muitas vezes, vinham ao meu reservado colando mensagens dos fajutos do tipo: “... escrava apresente-se em meu reservado, de joelhos, "é uma ordem"..... Então, ríamos muito.....uma vez a sub me consultou: "Senhor, o que acha, devo perguntar se "ele" colocará cacos de vidro na sala?”Não soa ridículo?. Aqui quero esclarecer dúvidas de vocês, submissas, com base na experiência, em regras básicas e na lógica,  e fico à disposição para esclarecimentos. Um dominador de verdade, real, que é adepto e prega o SSC, jamais trata uma sub ou candidata a sub como se sua propriedade fosse. Nunca tenha pressa, amiga submissa. Não aceite figurar como uma presa a ser abatida por um predador, ao qual a natureza não a preparou para se defender nem para escapar. Você não é obrigada a chamar ninguém de senhor, antes de ter a certeza de quem é a pessoa com a qual está falando; você, antes de ser submissa, é uma mulher e é um ser humano, portanto, digna de respeito; alguém só manda em você, depois de você ter cedido, espontaneamente, o poder sobre você, e isso é um processo gradual; a não ser que você tenha permitido, não admita comentários mal educados, ofensivos, agressivos ou que a desagradem, aliás, outro conselho, não publique imagens, fotos suas, muito menos, ser forem íntimas; além do uso livre dessas imagens por pessoas no mundo inteiro, estão possíveis constrangimentos... Todo Dominador deve ter um planejamento, uma esquematização de instruir suas submissas de acordo com um plano, um projeto. Para mim, particularmente, não há dificuldades pois, além da formação, da vivencia no SM, junta-se a experiência de vida, ambas imprescindíveis à relação SM , bem estruturada. Tenho muito mais a dizer, me aguardem para muito breve. Comentários e críticas, serão sempre bem vindos(as).

SEUDOOESENHOR
           SDS

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A descoberta da submissão. Considerações.


Normalmente, quando o sentimento de submissão aflora, explode, a sub tem um choque, um impacto inicial por se deparar com algo que muitas vezes até desconfiava, mas não tinha consciência. Então, após esse choque inicial, vem a ansiedade para encontrar alguém para compartilhar, dividir, servir, pertencer. Mas não deve haver pressa. A necessidade de pertencer pode levar a decisões precipitadas e perigosas. É preciso estabelecer regras, seguir etapas, estágios. Agora que você descobriu esta coisa maravilhosa em você, é hora de aprender mais sobre si mesma. Leia muito, pesquise, explore todo o material disponível descobrindo, aos poucos e com persistência, as coisas que tocam você, que a excitam, procure imagens e fantasie praticando, leia contos eróticos envolvendo cenas e práticas. Provoque-se.

Se você não sabe quais são as suas opções, como pode tomar uma decisão consciente sobre sua vida? Não espere encontrar alguém para decidir isso por você. Você tem que decidir quem você é, o que você tem a oferecer e o que você está procurando em um Dom/Mestre, antes de procurar a pessoa para quem você vai doar-se a si mesma. Há tantos livros e sites para ler, estudar e obter o conhecimento que você precisa para encontrar o seu parceiro de forma consciente, inteligente e segura. Aproveite o tempo para aprender todos os diferentes aspectos de D / s, S / M, e o BDSM no contexto geral, universal. Você não tem que gostar de dor, mas, se descobrir que gosta ótimo. O importante é explorar, descobrir o que te atrai, te excita, faz teus olhos brilharem. Qual é o cardápio? Quais são suas opções? Qual é a diferença entre a humilhação e degradação? O que é a escarificação? O que é um chicote, uma gag ball? Há diferenças entre submissa e escrava? Se há, quais são? Qual seu grau de submissão: deseja realmente pertencer a alguém, se dedicar, aprender e obedecer ou apenas ser sub de sessão, obtendo diversão momentânea e por algumas horas, sem nenhum compromisso? É importante que você defina seus reais desejos para que possa direcionar a procura de forma direta e correta. Bem vinda ao nosso maravilhoso e prazeroso universo. Boa caminhada e desejo que seja muito feliz.

SeuDonoeSenhor
       SDS

Retorno

Após um período de afastamento para fazer uma pós-graduação, retorno, com prazer, à ativa naquilo que mais me apaixona na vida: o BDSM. Espero a partir de hoje,  dedicar o tempo que antes dedicava ao que pauta minha vida, meus dias, minha existência. Uma saudação especial a todos, Doms e subs que me acompanham e são acompanhados através de todos esses anos. Contem comigo. Abraços.

SeuDonoeSenhor

       SDS

sexta-feira, 3 de maio de 2013

As Restrições dos Guardiões Morais




Parece-me a mim que o pressuposto em que se baseiam as ações restritivas dos nossos guardiões morais é simplesmente o de que o acesso à literatura proibida nos pode levar a comportar-se como animais. Mas pensar assim é insultar o reino animal. E, ao mesmo tempo, transformar paixão, o maior atributo do homem, numa caricatura. A gama da paixão humana é quase ilimitada, atingindo alturas e profundidades impensáveis. Precisamente por abarcar tais extremos é a paixão a autêntica pedra de toque da nossa humanidade, e talvez também da nossa divindade. De todas as criaturas da terra, o homem é a única de comportamento imprevisível. Há em nós alguma coisa de toda a criação. Quando nos é negada a menor parcela de liberdade, ficamos espiritualmente limitados e mutilados. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos. A religião faz de nós santos, ou apenas bons cidadãos, mas o que faz de nós homens, o que nos faz humanos até ao âmago, é a liberdade. É uma palavra terrível, a liberdade, para aqueles que viveram toda a vida mentalmente algemados.

Henry Miller, in A Obscenidade na Literatura.

A Racionalização das Emoções



O ponto de vista feminino tem sido muito mais difícil de expressar que o masculino. Se assim me posso exprimir, o ponto de vista feminino não passa pela racionalização por que o intelecto do homem faz passar os seus sentimentos. A mulher pensa emocionalmente; a sua visão baseia-se na intuição. Por exemplo, ela pode ter um sentimento em relação a qualquer coisa que nem sequer é capaz de articular. A princípio, achei extremamente difícil descrever como me sentia. Porém, se fazemos psicanálise, a questão é sempre: «Como é que se sentiu em relação a isso?» e não «O que é que pensou?» E como muito frequentemente a mulher não deu o segundo passo, que é explicar a sua intuição - por que passos lá chegou, o a-b-c daquilo - ela não consegue ser tão articulada.
Ora eu tentei fazer isso (quer tenha conseguido quer não), e, porque estava a escrever um diário que pensava que ninguém leria, consegui anotar o que sentia acerca das pessoas ou o que sentia acerca do que via sem o segundo processo. O segundo processo veio através da psicanálise, que era igualmente um método de comunicar com o homem em termos de uma racionalização das nossas emoções de modo que pareçam fazer sentido ao intelecto masculino. Por isso existe uma diferença, penso eu, que é muito profunda, mas que está a começar a desaparecer. Com efeito, penso que, quando a geração mais jovem passa por qualquer experiência psicanalítica, descobre que os sonhos dos homens e das mulheres são os mesmos, o inconsciente é universal, e que as coisas brotam do sentimento e do instinto e não passaram pelo processo de racionalização, e, portanto este é um ponto de vista feminino.

Anais Nin in "Fala Uma Mulher”.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A mulher madura



O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos. 

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso e repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

Affonso Romano de Sant'Anna in A muulher madura - Ed. Rocco - Rio de Janeiro - 1986