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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Asco da Imprensa

É impossível percorrer uma gazeta qualquer, seja de que dia for, ou de que
mês, ou de que ano, sem nela encontrar, a cada linha, os sinais da perversi-
dade humana mais espantosa, ao mesmo tempo que as gabolices mais sur-
preendentes de probidade, de bondade, de caridade, e as afirmações mais
descaradas a respeito do progresso e da civilização.
Os jornais, sem exceção, da primeira à ùltima linha, não passam dum
tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, impudicícias, torturas, crimes
dos príncipes, crimes das nações, crimes dos particulares, uma embriaguez
de atrocidade universal.
É com esse repugnante aperitivo que o homem civilizado acompanha a
sua refeição de cada manhã.
Tudo, nesse mundo, transpira o crime: o jornal, a muralha e o semblante
do homem.
Não compreendo que uma mão pura possa tocar num jornal sem uma
convulsão de repugnância.


Charles Baudelaire - In "Diário Íntimo"

sábado, 17 de maio de 2008

O carrasco de si mesmo

A J.G.F.

Vou te bater sem me irritar,
Sem ódio, como um açougueiro,
Como Moisés contra o outeiro!
E arrancarei do teu olhar,

Para irrigar os meus saaras,
As águas que brotam da dor.
Esperançoso, o meu amor
Irá nas lágrimas amaras

Para alto mar como um vapor
E o teu soluçar adorado
Meu coração embriagado
Fará bater como um tambor!

Não serei eu um falso acorde
No som do divino coral,
Culpa da ironia fatal
Que me arrebata e que me morde?

Ela distorce a minha voz!
É meu sangue, negro veneno!
E eu sou o espelho obsceno
Onde ela se enxerga, atroz!

Sou a espada e o degolado!
Sou a ferida e o punhal!
Sou a vítima, sou o mal,
Torturador e torturado!

Vampiro do meu coração,
Sou um dos grandes rejeitados
Ao riso eterno condenados
E que nunca mais sorrirão!

Charles Baudelaire - in Flores do Mal

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Hino à Beleza












Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se por isso comparar-te ao vinho.

Em teus olhos refletes toda a luz diuturna;
Lanças perfumes como a noite tempestuosa;
Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna
Que torna o herói covarde e a criança corajosa.

Provéns do negro abismo ou da esfera infinita?
Como um cão te acompanha a Fortuna encantada;
Semeias ao acaso a alegria e a desdita
E altiva segues sem jamais responder nada.

Calcando mortos vais, Beleza, a escarnecê-los;
Em teu escrínio o Horror é a jóia que cintila,
E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos,
Sobre teu ventre em amorosa dança oscila.

A mariposa voa ao teu encontro, ó vela,
Freme, inflama-se e diz: "Ó clarão abençoado!"
O arfante namorado aos pés de sua bela
Recorda um moribundo ao túmulo abraçado.

Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo!
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que amo e que jamais desvendo?

De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Que importa, se é quem fazes - fada de olhos suaves,
Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! -
Mais humano o universo e as horas menos graves?

Charles Baudelaire

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Vampiro



Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como os vermes a podridão,
- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Ah! pobre! o veneno e o punhal
isseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil - de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Uma carniça

Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante.

As pernas para cima, qual mulher lasciva,
A transpirar a miasmas e humores,
Eis que as abria desleixada e repulsiva,
O ventre prenhe de livores.

Ardia o sol naquela pútrida torpeza,
Como a cozê-la em rubra pira
E para o cêntuplo volver à Natureza
Tudo o que ali ela reunira.

E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir.

Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos
De larvas, a escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.

E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,
Que esguichava a borbulhar,
Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,
Vivesse a se multiplicar.

E esse mundo emitia uma bulha esquisita,
Como vento ou água corrente,
Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita
E à joeira deixa novamente.

As formas fluíam como um sonho além da vista,
Um frouxo esboço em agonia,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Apenas de memória um dia.

Por trás das rochas, irrequieta, uma cadela
Em nós fixava o olho zangado,
Aguardando o momento de reaver àquela
Carniça abjeta o seu bocado.

- Pois há de ser como essa coisa apodrecida,
Essa medonha corrupção,
Estrela de meus olhos, sol da minha vida,
Tu, meu anjo e minha paixão!

Sim! Tal serás um dia, ó deusa da beleza,
Após a bênção derradeira,
Quando, sob a erva e as florações da natureza,
Tornares afinal à poeira.

Então, querida, dize à carne que se arruína,
Ao verme que te beija o rosto,
Que eu preservarei a forma e a substância divina
De meu amor já decomposto!

Charles Baudelaire